Jornalistas&Cia 1443

Edição 1.443 página 21 Na década de 80 do século passado, este aristocrata, charmoso e sofisticado cronista (podem rir) trabalhou como repórter em várias rádios paulistanas, uma delas a Excelsior, atual CBN, “a rádio que toca notícia”. Um belo dia, não sei se de manhã ou de tarde, o chefe de reportagem, Celso Freitas, me escalou para entrevistar o indomável Tarso de Castro. Ele comentaria os principais fatos políticos da semana. Era uma época em que carcará e urubu ainda voavam de costas no Brasil. Ou voavam na vertical, tanto faz. Como conversar com o Tarso? Ele morava no Rio de Janeiro e eu em São Paulo. O diabo é que eu não tinha o telefone do Tarso, que, assim como no Pasquim, brilhava na Folha de S.Paulo. Aí me deu o estalo: fui à sede da Folha, na Barão de Limeira, a fim de conseguir o telefone dele. Encontrei o meu bom amigo José Luiz Teixeira na portaria. Rápido no gatilho, o Zé me quebrou o galho. Ele subiu à redação e anotou o número em um pedaço de papel. De volta à rádio, na Rua das Palmeiras, liguei pro Tarso. Ele me atendeu de um jeito elegante e educado que dava a impressão de que já me conhecia havia um bocado de tempo, tempo em que havia bombocado nas padarias. Bemhumorado e sarcástico pra cachorro, analisou os fatos com a competência de sempre. Em nenhum momento foi vacilão e nem passou pano em ninguém, como diz a moçada contemporânea. Esculhambou meio mundo. Encurtando o papo: a conversa foi ótima e rimos muito. Sagaz, Tarso sabia fazer frases de efeito. Divertido à beça. Quando terminou a entrevista, ele me fez um pedido: “Se você souber que o Flávio Cavalcanti sofreu um infarto, me Sandro Villar n A história desta semana é novamente uma colaboração de Sandro Villar ([email protected]), radialista e jornalista que por muitos anos atuou como correspondente do Estadão em Presidente Prudente, no interior de São Paulo. É autor de As 100 Melhores Crônicas de Humor de SV, lançado em 2004 (Editora Alta Books-RJ), que está na lista dos dez mais no segmento crônicas de humor. Tarso de Castro Tarso de Castro Divulgação avisa”. O pior é que, do jeito que está a programação da televisão atual, o Flávio faz falta. Ele, pelo menos, levava Tom Jobim a seu programa na TV Tupi. Por falar em Flávio Cavalcanti, lembro que o jornalista Sérgio Bittencourt, jurado do programa, estava Putin da vida com o Tarso. Ainda bem que os dois não saíram no tapa. Repito: Bittencourt estava enfurecido com críticas do Tarso. Ele era filho do lendário Jacob do Bandolim, talvez o maior nome do chorinho. Depois, o Tarso passou a assinar uma coluna na revista Afinal, dirigida pelo Sandro Vaia. Como mantivemos contato, de vez em quando passava informações para ele. “Olha, tem uma notícia que eu acho que você não vai publicar”, contei e falei assim só para provocá-lo. “Então, manda!”, falou o Tarso. Ele publicou essa e outras informações que lhe passei. Tarso de Castro era um editor sensível, um grande entrevistador e, principalmente, um cronista de mão cheia. Dizem que, na crônica, sua influência era do jornalista americano Art Buchwald, tremendo gozador que, ao morrer, disse: “Nunca pensei que morrer fosse tão divertido”. Ele também gostava de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. “Não há substituto para Sérgio Porto”, costumava dizer. Atrevome a dizer que não há substituto para Tarso de Castro, assim como também não há substituto para Hélio Ribeiro no rádio. São dois Pelés da comunicação e, no caso do Tarso, se não foi Pelé ele foi pelo menos Garrincha, pois driblou muita coisa sem pernas tortas.

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