18 busca se aprofundar, revelar fatos que não foram revelados, ouvir pessoas que não têm voz. Esse jornalismo que não tem essas amarras privadas ou públicas, e que investiga esses poderes, é ainda mais desafiador. Eu, como editora, sempre me preocupo com a segurança da equipe. Na Pública, temos dispositivos que nos ajudam com isso e garantem alguma proteção para os repórteres. Mas quando a gente faz um jornalismo comprometido com os fatos, infelizmente estamos sujeitos a ataques, processos e assédio judicial. Por isso é importante que os veículos tenham uma estrutura para se defenderem. Na Pública, por exemplo, temos uma consultoria jurídica, a que a gente pode recorrer para se orientar sobre risco de processo e tentar prevenir, de alguma forma, em reportagens mais sensíveis. Quando você faz um jornalismo com uma boa apuração, baseado em fatos, com documentos, com comprovações das informações, isso também é uma forma de você se proteger. Então, é essencial sempre orientar os repórteres a cobrirem todas as lacunas, que estejam sempre seguros em relação às informações publicadas e sejam muito atenciosos e criteriosos quanto à apuração e checagem de informações. Também acho muito importante o trabalho de associações, como a Abraji, que denunciam essas ofensivas jurídicas contra jornalistas e casos de violência digital. Essas entidades ajudam a denunciar e nos proteger enquanto classe. É muito importante também esse pensamento coletivo, para que a gente consiga se blindar mais. J&Cia/Portal – Ao olhar para os trabalhos premiados pela Agência Pública, vemos reportagens feitas a muitas mãos, de forma coletiva e até colaborativa com outras publicações. Como você analisa esse fenômeno? Mariama – O coletivo fortalece demais o trabalho jornalístico. A gente pensa muito junto, discutimos as ideias de pauta, os caminhos da apuração. Quando uma reportagem sai, mesmo que só um repórter assine, mesmo que eu assine uma reportagem sozinha, ela nunca é fruto de um trabalho totalmente solitário. Tem sempre um editor, o fotógrafo, alguém que fez as artes, o design, e até aquele colega que, durante um cafezinho, te deu uma dica ou alguma sugestão. Tem o pessoal das redes que vai ajudar, vai trabalhar aquele material com a linguagem de redes, o pessoal de vídeo, ou seja, toda uma estrutura de pessoas amparando o trabalho. Nunca é individual. Fico feliz também por ser uma mulher nordestina, de Pernambuco, de Olinda, que veio para São Paulo e conseguiu se consolidar aqui no mercado de trabalho e está levando, de certa forma, esse reconhecimento para o seu Estado. Eu também represento esses profissionais e o Pernambuco tem uma tradição de jornalismo histórica muito boa e abriga o Diário Pernambuco, por exemplo, que é o jornal mais antigo em circulação da América Latina. Infelizmente muitas vezes esses profissionais não são vistos, não são tão valorizados quanto outros que atuam aqui no eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília. Fico muito feliz e honrada em ser a +Premiada Jornalista do Ano, mas enxergo essa conquista como coletiva, pois ninguém faz jornalismo sozinho. Por isso enxergo como uma conquista que além de minha é da minha equipe na Pública, do jornalismo independente, do Nordeste, do jornalismo nordestino, do jornalismo pernambucano, enfim, desses profissionais que precisaram sair das suas cidades, dos migrantes nordestinos que vêm para São Paulo em busca de oportunidades. Eu me sinto com muita gente ao meu redor nesse momento. J&Cia/Portal – O que você diria para um estudante de jornalismo que está começando na carreira agora, que está querendo entrar nesse mundo do jornalismo investigativo, do jornalismo independente? Mariama palestra sobre desertos de notícias em encontro da Sociedad Interamericana de Prensa (SIP) ENTREVISTA: MARIAMA CORREIA
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