17 principal desafio do jornalismo independente no Brasil é conseguir manter essa grande rede. Porque esses veículos já existem, outros estão surgindo, inclusive fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília. Cito por exemplo a Cajueira, que é um projeto de valorização do jornalismo independente nos estados do Nordeste, que eu cofundei há cinco anos, com jornalistas também nordestinas. Fazemos newsletter, podcast, temos um banco de fontes nordestinas, fazemos curadoria, uma centena de projetos. É muito importante garantir que esses veículos sigam existindo e trabalhando no Brasil. É essencial desenvolver mais possibilidades para financiamento e sustentabilidade para eles e para a defesa da nossa democracia, que está sob ataque constantemente. Por isso uma das principais bandeiras que defendo em meu trabalho é a descentralização do jornalismo. Eu, como mulher nordestina, saí de minha terra para trabalhar em São Paulo, porque precisei vir em busca de oportunidades, porque as oportunidades não estão em todos os lugares no Brasil. O justo seria que a gente tivesse oportunidade para todo mundo em todos os estados. Essas são as minhas principais bandeiras hoje, a defesa do jornalismo, dessa liberdade editorial do jornalista, do jornalismo independente e da descentralização do jornalismo no Brasil. J&Cia/Portal – Qual a importância de participar do projeto Atlas da Notícia nesse contexto de descentralização do jornalismo? Mariama – O Nordeste é a região com maior quantidade de desertos de notícias do País. É uma região enorme, a segunda maior população do País e a gente tem muitos dos municípios com desertos de notícias ou com quase desertos, que também são muito sensíveis, pois podem virar desertos facilmente. Se isso acontece, aquela população não vai ter acesso a informações checadas sobre o seu município. Muitas vezes, aquela população está mais bem informada sobre o que acontece nos grandes centros porque a televisão reproduz conteúdo de São Paulo, de Rio de Janeiro, de Brasília, mas não sabe o que acontece na sua própria cidade. Não há jornalistas locais para, por exemplo, acompanhar as decisões da Prefeitura, as sessões na Câmara de Vereadores, para denunciar quando falta remédio no posto, quando não tem comida na creche. Além disso, quando há um deserto de notícias, a população fica mais vulnerável à desinformação, porque, sem fontes confiáveis, sem checagem e sem critérios jornalísticos, as pessoas vão se informar pelas redes sociais, onde as informações têm uma qualidade extremamente questionável. E isso impacta decisões futuras, votos eleitorais, afeta diretamente a história do País. Felizmente, os desertos de notícias vêm se reduzindo com o avanço digital, porque hoje em dia é muito mais fácil você abrir uma página independente. Mas a qualidade dessa informação nem sempre é boa. E aí se mostra muito importante o que eu falei sobre discutir possibilidades de financiamento para fomento do jornalismo, entendendo que ele é muito importante para a nossa democracia. J&Cia/Portal – Como é fazer jornalismo investigativo no Brasil? Mariama – Acredito que fazer qualquer tipo de jornalismo no Brasil é muito desafiador, especialmente um jornalismo que defende direitos humanos, que Mariama integrou a equipe da Agência Pública no Festival 3i
RkJQdWJsaXNoZXIy MTIyNTAwNg==