Ranking +Premiados da Imprensa 2025

15 tudo certo, tinha saído do Marco Zero, entreguei meu apartamento, mas aí estourou a pandemia de Covid-19. Minha vida estava toda em suspenso. Eu fiquei sem saber o que fazer. E a Pública demorou um tempinho para se organizar, como todo mundo, pensando como fazer os trabalhos. Eu fiquei esperando, agoniada de não fazer nada. Me voluntariei para um trabalho que era o Brasil. IO, que fazia um levantamento de mortes pela Covid, comparando com dados divulgados pelos estados. A gente fazia a contagem todo dia, foi um projeto importante na época. E na minha cabeça, eu pensava que precisava fazer alguma coisa, pois com a pandemia acontecendo, o jornalismo estava de certa forma em um “limbo”. Em setembro de 2020, finalmente o pessoal da Pública me deu o sinal positivo para vir. Naquela época, tinha uma expectativa de que melhorasse tudo no final do ano. Os índices estavam reduzindo, e a gente estava vivendo uma esperança de que 2021 ia ser tranquilo. Eu cheguei a São Paulo, fiquei inicialmente na casa de uma amiga, depois aluguei um apartamento. O problema é que no começo de 2021 tudo piorou, e eu já estava aqui em São Paulo, morando sozinha. São Paulo era uma cidade difícil, solitária, um território desconhecido para mim. Imagine eu, que não conhecia a cidade, estava longe de familiares e amigos por causa do isolamento social, ainda sem vacina e acompanhando diariamente notícias de mortes, incluindo pessoas jovens – foi desesperador. Decidi ir ficando, ver o que acontecia, porque voltar era arriscado, minha mãe é idosa, eu mesma acabei pegando Covid. Mas as coisas foram se acalmando aos poucos e agora, em abril de 2026, eu completarei seis anos de Pública. Foi um período de adaptação muito estressante, mas ainda bem que tudo deu certo no final das contas. J&Cia/PJ – Sobre os projetos premiados da Pública que você fez parte – o Caso K, Projeto Escravizadores e Clima das Eleições –, algum bastidor interessante para compartilhar? Mariama – O Caso K é um trabalho investigativo de muitos anos de apuração, acho que foi o maior da minha carreira até agora. As primeiras reportagens saíram ainda em 2021. Recebemos envelopes com vários documentos policiais e processos judiciais muitos detalhados. Na época, inclusive, eu estava paralelamente fazendo uma outra investigação sobre crimes sexuais de mestres da capoeira, de um grupo chamado Cordão de Ouro. Foi um contexto bem pesado para mim, porque é claro que o trabalho, principalmente sobre temas sensíveis como esses, acaba nos atravessando, sabe? Fiquei até com uma certa mania de perseguição. Em certa noite, um carro parou na porta de minha casa, e eu fiquei desesperada, achei muito estranho, achei que alguém estava atrás de mim, foi muito esquisito. Dito tudo isso, acredito que o resultado do projeto foi incrível. Viajamos para falar com as pessoas, tivemos muitas conversas e o podcast chegou a ficar em segundo lugar no Spotify. Nesse contexto, aconteceu algo que eu nunca tinha experimentado na vida: ser reconhecida no meio de uma festa com amigos. Uma pessoa, do nada, aproximou-se de mim e perguntou “você não é aquela jornalista do Caso K?” e eu respondi “sou!” e a pessoa elogiou, parabenizou pelo projeto e pediu para eu mandar um áudio para a prima dele, que estava na Suíça e também havia adorado o podcast. Para a gente, que não trabalha com tevê, foi uma experiência muito maluca, que me fez perceber que o trabalho realmente furou a bolha e as pessoas reconheceram o que fizemos. Sobre o Escravizadores, acredito que foi uma ideia ousada, que surgiu após trabalharmos com pesquisadores de genealogia. Para fazer a árvore genealógica de políticos e de autoridades brasileiras, foi preciso checar, checar, checar, checar e depois rechecar mais ainda. A gente ficou bem preocupada com tudo isso, pois eram muitas informações e não podíamos errar. Todas as histórias precisavam estar milimetricamente corretas e pautadas nos dados coletados.

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