Realização: ●Entrevista exclusiva com a +Premiada Jornalista do Ano ●Premiações distribuíram mais de R$ 4 milhões em 2025 ●Iniciativas globais são destaque entre as estreias da edição ●Recorte inédito mostra os jornalistas mais premiados internacionalmente ●TV Globo, Metrópoles e Agência Pública são os +Premiados Veículos do Ano ●Intensa movimentação agita os TOP 10 dos +Premidos Jornalistas da História E mais... 2025 +Premiada Jornalista do Brasil em 2025, a editora da Agência Pública destaca a força da mulher nordestina e a importância do trabalho em equipe no jornalismo Fevereiro de 2026 Mariama Correia Talento pessoal, luta coletiva
2 Índice +Premiados Jornalistas do Ano Quais os prêmios que mais distribuíram valores a seus vencedores? Iniciativas globais são destaque entre os prêmios Carta ao leitor 3 20 Como é feito o cálculo e quais prêmios são analisados? 4 Os mais premiados nas 15 edições do Ranking 25 +Premiados Veículos da História 44 +Premiados Grupos da História 54 Os jornalistas que mais conquistaram prêmios internacionais 43 11 +Premiados Grupos do Ano 31 7 +Premiados Veículos do Ano 26 Entrevista: Mariama Correia, a +Premiada Jornalista do Ano 12 +Premiados Jornalistas da História 32
3 Editorial Expediente O Ranking +Premiados da Imprensa Brasileira é uma produção da Jornalistas Editora Ltda. Coordenação Geral: Fernando Soares ([email protected]) • Reportagem: Victor Felix • Revisão: Wilson Baroncelli Direção: Eduardo Ribeiro • Diagramação: Paulo Sant’Ana • Estagiárias: Ana Laura Ayub e Hellen Castro Publicidade: Silvio Ribeiro e Vinicius Ribeiro Este conteúdo pode ser reproduzido livremente mediante citação da fonte. Pelo 15º ano consecutivo, Jornalistas&Cia e Portal dos Jornalistas apresentam aos seus leitores os jornalistas, veículos e grupos de comunicação que mais se destacaram a partir dos prêmios de jornalismo que conquistaram. E foi um ano mais que especial: em 2025, o jornalismo brasileiro reafirmou ainda mais sua relevância no cenário global ao conquistar algumas das mais prestigiadas premiações internacionais da área. E foi um protagonismo, acima de tudo, feminino. Elas brilharam e foram homenageadas em algumas das mais tradicionais premiações do jornalismo global, como os casos de Natalia Viana, homenageada com o Maria Moors Cabot; de Patricia Campos Mello, que recebeu o Reconhecimento à Excelência do Prêmio Gabo; Karla Mendes, premiada com o John B. Oakes de Jornalismo Ambiental; Juliana Dal Piva, pelo Courage Awards; e Ester Pinheiro, vencedora do CCNow Journalism Awards. Isso sem falar de Mariama Correia, a +Premiada Jornalista do Ano, que integrou as equipes da Agência Pública vencedoras dos prêmios CCNow e SIP. Mas não foram apenas as mulheres que brilharam. Também se destacaram internacionalmente em 2025 os repórteres fotográficos Fabio Alarico Teixeira e Marcelo Magani, que venceram as categorias de Fotografia dos prêmios Rei da Espanha e SIP, respectivamente, e as equipes das plataformas Porvir, Amazônia Vox e Matinal Jornalismo, também vencedoras do CCNow; do Metrópoles, premiado no Latino-Americano de Jornalismo de Investigação; e da Folha de S.Paulo, pelo Roche de Jornalismo em Saúde. São resultados que celebram não apenas o talento de jornalistas brasileiros, mas também evidenciam a maturidade, a diversidade e a força de um jornalismo que dialoga com o mundo e que contribui de forma decisiva para a defesa da democracia e do interesse público. * Fernando Soares, editor de Jornalistas&Cia e coordenador do Ranking +Premiados da Imprensa Brasileira Talento feminino garante protagonismo internacional para o Brasil em 2025
4 Criado para reconhecer o trabalho de excelência de jornalistas, veículos e grupos de comunicação brasileiros, a partir dos prêmios por eles conquistados, o Ranking +Premiados da Imprensa Brasileira chega à sua 15ª edição com números impressionantes. São 214 prêmios analisados, entre iniciativas internas de veículos, locais, regionais, nacionais e internacionais. Desde 1941, ano em que se tem conhecimento do primeiro prêmio conquistado por um jornalista brasileiro, já foram 11.732 profissionais reconhecidos pelos seus trabalhos. Juntos, eles representam 1.325 veículos, que integram algumas centenas de grupos de comunicação por todo o País. Mas como chegamos a estes números? Pela metodologia aplicada desde a primeira edição do Ranking, em 2011, as premiações analisadas são categorizadas de acordo com suas amplitudes temáticas e geográficas. Quanto mais ampla e abrangente for a possibilidade de participar de uma iniciativa, mais pontos ela renderá ao jornalista premiado. “O sistema de pontos, se não é perfeito, é extremamente justo e orientado pelo desafio de dar objetividade a algo tão subjetivo como o valor intrínseco que a conquista de um prêmio tem para alguém”, explica o coordenador da pesquisa Fernando Soares. No formato adotado, o Ranking atribui de 10 a 100 pontos para cada prêmio vencido por jornalistas e seus veículos. Como não há um critério padrão de reconhecimento a ser seguido pelas premiações, menções honrosas e eventuais prêmios para 2º e 3º colocados não são considerados pela pesquisa. No caso dos profissionais, esses pontos são computados M E T O D O L O G I A Como são definidos os +Premiados da Imprensa Brasileira? Saiba quais são os prêmios analisados e como é feito o cálculo que aponta os jornalistas, veículos e grupos de comunicação mais premiados do ano e da história https://www.pexels.com/pt-br/foto/arte-cabeca-topo-lider-8378726
5 na totalidade para conquistas individuais, e pela metade para trabalhos em equipe. Já para veículos e grupos cada conquista é única e integral, independentemente da quantidade de profissionais da equipe que conquistaram o prêmio. Ao ser cadastrada na pesquisa, uma premiação é classificada levando em consideração os seguintes aspectos: Geográfico zGlobal: Concorrem com profissionais de todo o mundo; zContinental: Iniciativas destinadas ao jornalismo nas Américas; zNacional: Concorrem profissionais de todo o País; zRegional: Destinada a premiações divididas por regiões brasileiras; zLocal: Iniciativas estaduais, municipais ou microrregionais dentro de um único estado; zInterno: Premiações de veículos ou grupos de Comunicação. Temático: zGeral: Premiações e homenagens que não fazem distinção de tema; zEspecífica: Premiações e homenagens direcionadas a determinadas editorias (Economia, Meio Ambiente, Política etc.); zInstitucional: Premiações e homenagens com foco em temas pré-determinados por entidades e empresas organizadoras, que se beneficiam diretamente do assunto abordado; Por seu valor histórico para o jornalismo brasileiro, os prêmios Esso e Embratel são os únicos que contam com A família +Admirados da Imprensa cresceu Quer saber mais? Vinicius Ribeiro – (11) 9.9244.6655
6 pontuações específicas e próprias, mas que também levam em consideração as divisões geográficas e temáticas. A pontuação é definida a partir do cruzamento das subdivisões em que cada categoria de um prêmio se encaixa, como mostra a tabela abaixo. Vale destacar que um mesmo prêmio pode ter categorias em mais de uma classe de pontos. Um exemplo é o próprio Prêmio Esso, que se notabilizou por reconhecer, além de reportagens nacionais de temática geral, trabalhos divididos por temáticas, como o prêmio de Informação Econômica (Nacional/ Específica) ou pelas regiões do Brasil (Regional/Geral). Divisão geográfica Subdivisão temática Pontos Globais Grande prêmio de reportagem geral 100 Homenagem geral 100 Prêmio de reportagem geral 90 Grande prêmio de reportagem específica 85 Homenagem específica 85 Prêmio de reportagem específica 75 Grande prêmio de reportagem institucional 70 Homenagem institucional 70 Prêmio de reportagem institucional 60 Continentais (prêmios exclusivos para américas) Grande prêmio de reportagem geral 90 Homenagem geral 90 Prêmio de reportagem geral 80 Grande prêmio de reportagem específica 75 Homenagem específica 75 Prêmio de reportagem específica 65 Grande prêmio de reportagem institucional 60 Homenagem institucional 60 Prêmio de reportagem institucional 50 Nacionais Grande prêmio de reportagem geral 75 Homenagem geral 75 Prêmio de reportagem geral 65 Grande prêmio de reportagem específica 60 Homenagem específica 60 Prêmio de reportagem específica 50 Grande prêmio de reportagem institucional 45 Homenagem institucional 45 Prêmio de reportagem institucional 35 Prêmio de votação direta geral 35 Prêmio de votação direta específica 30 Divisão geográfica Subdivisão temática Pontos Regionais Grande prêmio de reportagem geral 60 Homenagem geral 60 Prêmio de reportagem geral 50 Grande prêmio de reportagem específica 45 Homenagem específica 45 Prêmio de reportagem específica 35 Grande prêmio de reportagem institucional 30 Homenagem institucional 30 Prêmio de reportagem institucional 20 Prêmio de votação direta geral 20 Prêmio de votação direta específica 15 Locais (estaduais e municipais) Grande prêmio de reportagem geral 50 Homenagem geral 50 Prêmio de reportagem geral 40 Grande prêmio de reportagem específica 35 Homenagem específica 35 Grande prêmio de reportagem institucional 25 Homenagem institucional 25 Prêmio de reportagem específica 25 Prêmio de reportagem institucional 15 Prêmio de votação direta geral 15 Prêmio de votação direta específica 10 Internos de veículos Grande prêmio 15 Prêmios regulares 10 Especiais Especial - grande prêmio esso de jornalismo 100 Especial - gp embratel (barbosa lima sobrinho) 85 Especial - esso de telejornalismo 85
7 Seguindo seu ritmo de constante atualização e inclusão de novos prêmios de jornalismo promovidos pelo Brasil e pelo mundo, o Ranking +Premiados da Imprensa Brasileira acrescentou nesta edição 14 iniciativas. Com isso, o total de prêmios analisados saltou para 214, um crescimento de 7% em relação ao ano passado. O destaque desta edição foi a inclusão de três premiações globais já consagradas, duas delas incluídas em 2025 por terem premiado pela primeira vez jornalistas brasileiros. https://www.pexels.com/pt-br/foto/globo-20881520/ Iniciativas globais são destaque entre os prêmios que estreiam nesta edição Especial Uma Edição histórica!!! Acesse
8 Promovido pela Escola de Jornalismo de Columbia, de Nova York, a mesma que organiza o Maria Moors Cabot Prize, mais antiga premiação do jornalismo de que se tem conhecimento, o prêmio John B. Oakes é dedicado a reconhecer reportagens que contribuam para a compreensão do público sobre questões ambientais. Em 2025 o troféu foi entregue a Karla Mendes, do Mongabay, que se tornou a primeira brasileira a conquistar o prêmio. Outra profissional que teve a honra de se tornar a primeira brasileira entre os vencedores de um prêmio internacional foi Juliana Dal Piva, do ICL Notícias. Ela foi escolhida para receber no ano passado o Courage Awards, iniciativa criada em 1990 pela International Women’s Media Foundation que tem como objetivo destacar o trabalho de jornalistas mulheres que assumem riscos para reportar ou trabalham em ambientes hostis. Mais recente, lançado em 2021, o CCNow Journalism Awards só entrou em nosso radar nesta edição por ter contemplado três trabalhos brasileiros em 2025. As reportagens premiadas, com foco na cobertura do clima, foram produzidas pela Revista AzMina, pelo site Porvir e pelo consórcio formado por Agência Pública, Amazônia Vox e Matinal Jornalismo. Apesar da estreia, não foi a primeira vez que brasileiros conquistaram a premiação. Em edições anteriores foram premiados a própria Agência Pública, além de O Joio e O Trigo, France Presse e Editora Globo. Acre e Mato Grosso ampliam alcance nacional do Ranking Dentre as demais iniciativas que estrearam nesta edição, destaque para prêmios locais promovidos nos estados do Acre e do Mato Grosso. Com as inclusões dos prêmios MPAC, do Ministério Público do Acre, e Aprosoja-MT, da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso, os dois estados passam a figurar entre as unidades da federação com prêmios locais analisados pelo Ranking. Apenas Amapá, Maranhão, Paraíba, Roraima, Sergipe e Tocantins ainda não figuram nessa lista. Além destes, estreiam na pesquisa os prêmios nacionais IQA de Qualidade Automotiva, MOL de Jornalismo para a Solidariedade, Mercantil, Trânsito Seguro e Synapsis FBH; e os estaduais Águas de Manaus de Jornalismo Ambiental (Amazonas); ACI/Ocesc (Santa Catarina); e Faciap e Apre Floresta s (Paraná). Vale lembrar que apenas iniciativas que já tiveram ao menos três edições realizadas estão aptas a serem incluídas na lista de premiações avaliadas. Cálculo para ranking de veículos não considera prêmios internos Algumas medidas e ajustes foram necessárias para chegar aos resultados dos rankings de veículos e grupos mais premiados do ano e da história. Além de considerar a pontuação integral de maneira única para o caso de trabalhos em equipe, não são computados os resultados dos prêmios internos dos veículos. Com isso, em vez de 214 iniciativas, as pontuações de Abril, Agência Estado, Editora Globo, Estadão, Folha, RBS e Zero Hora nesses levantamentos levam em consideração os resultados de 207 premiações, desconsiderando os prêmios internos dessas organizações. Confira a relação completa dos prêmios avaliados: Karla Mendes, do Mongabay, foi homenageada em setembro de 2025 com o John B. Oakes por investigação que revelou a explosão de gado ilegal e crimes ambientais na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão Sirin Samman/Oakes Award Vítima de ataques, processos e assédios da extrema direita brasileira, Juliana Dal Piva, do ICL Notícias, recebeu o Courage Awards por seu trabalho revelando casos de corrupção do Clã Bolsonaro e de abusos de direitos humanos Arquivo pessoal
9 Internacionais ●CCNow Journalism Awards** ●Colombe D’oro Per La Pace ●Courage Awards (IWMF)** ●CPJ Internacional Press Freedom ●Econômico Ibero Americano ●Every Human Has Rights ●Eset-LA ●Gabo ●Global Shining Light Award ●Iberoamericano Rei da Espanha ●John B. Oakes de Jornalismo Ambiental** ●Knight International ●Kurt Schork ●Latino-Americano em Saúde Vascular ●Latino-Americano de Jornalismo Investigativo ●Lorenzo Natali ●Maria Moors Cabot ●One World Media Awards ●Roche ●Seal Awards ●SIP ●Wash Media Awards Nacionais ●+Admirados da Imprensa ●3M ●99 ●ABCR ●ABCZ ●Abdias Nascimento ●Abear ●Abecip ●ABF ●Abimilho ●Abmes ●ABP ●Abraciclo ●Abracopel ●Abrafarma ●Abraji ●Abramge ●Abrapp ●Abrelpe ●Abvcap ●ACIE ●Adpergs ●AEA de Meio Ambiente ●Allianz Seguros ●Alltech ●Amaerj – Patrícia Acioli ●AMB ●ANA ●Anamatra ●Andifes ●ANTF ●Automação Imprensa ●Ayrton Senna ●Biodiversidade da Mata Atlântica ●BM&FBovespa ●Bracelpa ●Brasil Ambiental ●C6 ●Caixa ●Câmara Espanhola ●Cbic ●CICV ●Citi ●Cláudio Abramo ●Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados ●CNA ●CNH ●CNI ●CNT ●Comissão Europeia de Turismo ●Comunique-se ●Direitos Humanos ●Ecopet ●Embrapa ●Embratel ●Esso ●Estácio de Sá ●Ethos ●Fenacon ●Fraterno Vieira ●Gilberto Velho ●GTPS ●IBGC ●IGE ●IMPA ●Imprensa de Educação ao Investidor ●INAC de Integridade ●IQA** ●IREE ●Itaú de Finanças Sustentáveis ●Jabuti ●João Valiante ●Jornalismo em Seguros ●Jornalista de Impacto ●Jornalista Tropical ●Jornalistas&Cia ●José Hamilton Ribeiro ●José Luiz Egydio Setúbal ●José Reis ●Líbero Badaró ●Longevidade ●Massey Ferguson ●Medtronic ●Mercantil** ●Microcamp ●Mobilidade Urbana Sustentável (ITDP) ●MOL** ●Mongeral Imprensa ●MPT ●Mulher Imprensa ●New Holland ●NHR Brasil ●Onip ●Personalidade da Comunicação ●Petrobras ●Policiais Federais ●República ●SAE Brasil ●Santos Dumont ●SBD ●Sbim ●SBR/Pfizer ●Sebrae ●Sefin ●Senai ●Synapsis FBH** ●Telesp
10 ●Tim Lopes (Andi) ●Tim Lopes (Disque Denúncia-RJ) ●Top Etanol ●Trânsito Seguro** ●Transparência ●Troféu Audálio Dantas ●Unisys ●Vladimir Herzog ●Volvo Regionais ●BNB (Nordeste) Estaduais Acre ●MPAC** Alagoas ●Braskem ●Octávio Brandão Amazonas ●Águas de Manaus** ●Fapeam Bahia ●Abapa Ceará ●ACI ●Adpec ●Gandhi ●MPCE ●Prefeitura de Fortaleza Distrito Federal ●Engenho Espírito Santo ●Adepes ●Jornalismo Cooperativista Goiás ●OAB-GO ●MPGO ●Sincor-GO Mato Grosso ●Aprosoja MT** Mato Grosso do Sul ●Águas Guariroba ●OCB-MS ●Sistema Famasul ●SRCG de Agrojornalismo Minas Gerais ●CDL/BH ●Chico Lins ●Corecon-MG ●Crea-MG ●Délio Rocha Pará ●Aimex/Danilo Remor ●Hamilton Pinheiro ●Sistema Fiepa Paraná ●AMOP ●Apre Florestas** ●Faciap** ●Fecomércio-PR ●Femipa ●Ocepar ●Sangue Bom ●Sistema Fiep Pernambuco ●Cristina Tavares Piauí ●MPPI Rio de Janeiro ●Alexandre Adler/Sindhrio ●Corecon-RJ ●Firjan ●Mobilidade Urbana ●Secovi-Rio Rio Grande do Norte ●MPRN Rio Grande do Sul ●Amrigs ●ARI ●Asdep ●Cooperativismo Gaúcho ●Corecon-RS ●José Lutzemberger ●Justiça Eleitoral ●MPRS ●Press ●Setcergs ●Sindilat-RS ●Themis Rondônia ●MPRO Santa Catarina ●ACI/Ocesc** ●CRO-SC ●Fenabrave-SC ●Fiesc São Paulo ●Abag/RP ●Aceesp ●Crosp ●Fecomércio-SP ●Fundação Feac Internos de veículos* ●Abril ●Agência Estado ●Editora Globo ●Estadão ●Folha ●RBS ●Zero Hora * Não são considerados nos rankings de veículos de grupos de comunicação. ** Premiações incluídas nesta edição do Ranking.
11 Além do reconhecimento e do prestígio profissional, os prêmios de jornalismo podem ser uma importante fonte de renda extra para jornalistas, especialmente em um mercado que nem sempre valoriza financeiramente seus profissionais como deveria. Em 2025, das quase 90 premiações ativas analisadas pelo Ranking dos +Premiados da Imprensa Brasileira, 58 distribuíram valores em dinheiro para os contemplados. Somadas, essas quantias ultrapassaram a casa dos R$ 4 milhões. E esse valor é ainda maior quando consideramos as peculiaridades de algumas premiações. É o caso do Prêmio Sebrae, por exemplo, que apesar de não informar nenhuma premiação em dinheiro para sua etapa Nacional, que vale pontos para o Ranking, conta com entrega de valores em boa parte de suas etapas Estaduais, classificatórias. Em alguns casos, esses valores ultrapassam a casa dos R$ 50 mil. Diversas iniciativas recompensam seus vencedores com outros tipos de prêmios, como viagens, cursos e valecompras, que não foram consideradas no montante final da pesquisa. Dentre os prêmios avaliados, o Rei da Espanha, impulsionado pela força do euro, é o que distribui a maior premiação para seus vencedores: € 10 mil para cada uma de suas seis categorias, totalizando € 60 mil, ou quase R$ 380 mil na cotação atual (janeiro de 2026). Já entre as premiações nacionais, o CNT de Jornalismo destacou-se em 2025 ao distribuir R$ 305 mil aos seus vencedores. Confira os dez concursos que mais premiaram em dinheiro seus vencedores em 2025: Posição Prêmio Valores (R$) 1º Rei da Espanha* 375.000,00 2º CNT de Jornalismo 305.000,00 3º Gabo** 250.000,00 4º Aprosoja/MT 225.000,00 5º Jornalismo em Seguros 210.000,00 6º Fiesc de Jornalismo/SC 150.000,00 7º Sistema Fiep de Jornalismo/PR 128.000,00 8º Jornalismo Cooperativista/ES 123.700,00 9º Simineral/PA 119.000,00 10º Águas Guariroba De Jornalismo Ambiental/MS 110.000,00 IREE de Jornalismo * Valor original em Euros: $ 60.000,00 ** Valor original em Pesos Colombianos: $ 175.000.000,00 Premiações que integram o Ranking distribuíram mais de R$ 4 milhões em 2025 https://www.pexels.com/pt-br/foto/dinheiro-moeda-grana-simbolo-12915480/
12 Mudar de estado em meio a uma pandemia, enfrentar os desafios de uma cidade desconhecida, participar de grandes reportagens investigativas, ver seu trabalho reconhecido em importantes premiações nacionais e internacionais, e terminar 2025 como a +Premiada Jornalista do Ano. Este é apenas um “resumo do resumo” dos últimos anos da carreira de Mariama Correia, editora da Agência Pública, que alcançou a primeira colocação do Ranking +Premiados Jornalistas do Ano 2025, com um total de 127,5 pontos. Um feito que representa não apenas o trabalho de excelência desta profissional e da própria Pública, com suas investigações de fôlego que revelam o que está “por trás das cortinas” e abordam assuntos “espinhosos” que poucos se aventuram a contar, mas também a importância do trabalho colaborativo no jornalismo. Uma marca dessa publicação que, assim como este Ranking, está completando 15 anos de vida em 2026. Com exceção à conquista de Natalia Viana, cofundadora e diretora-executiva da Agência Pública, no Maria Moors Cabot, uma das mais tradicionais premiações do jornalismo mundial, todos os prêmios vencidos pela publicação em 2025 vieram como reconhecimento a reportagens especiais produzidas por grandes equipes ou até mesmo em colaboração com outras publicações. Foram quatro troféus no total, faturados a partir de três trabalhos: o Projeto Escravizadores, que mapeou os antepassados de mais de cem autoridades brasileiras do Executivo e Legislativo para identificar se havia casos de uso de mão de obra escravizada, vencedor dos prêmios SIP, na categoria Jornalismo de Dados e Infografia, e Claudio Weber Abramo, em Investigação; o Caso K, podcast sobre como Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, teria mantido, durante décadas, um esquema de aliciamento e exploração sexual de crianças e adolescentes, vencedor do prêmio Amaerj Patrícia Acioli, na categoria Reportagens Jornalísticas; e o Clima das Eleições, investigação pioneira feita durante as eleições municipais de 2024, em parceria com as publicações Matinal Jornalismo e Amazônica Vox, que investigou os problemas das cidades sob a perspectiva das mudanças climáticas, analisando a atuação e propostas dos candidatos sobre o assunto, vencedora do CCNow Journalism A importância do trabalho coletivo e da descentralização do jornalismo José Cícero ENTREVISTA: MARIAMA CORREIA Mariama Correia, a +Premiada Jornalista de 2025 Por Victor Félix
13 Awards, em Grandes Projetos & Colaborações. Três grandes reportagens bem distintas e com características únicas, mas que tinham todas um denominador comum: a presença de Mariama Correia trabalhando arduamente nas investigações. Especializada em jornalismo investigativo, autora de reportagens de fôlego, Mariama é natural de Olinda, em Pernambuco, e iniciou a carreira sob a influência de seu pai, que era escritor. Ao ingressar na faculdade de jornalismo, acreditava que iria trabalhar com cultura e música, mas o início veio em assessoria de imprensa. Seu primeiro trabalho em redações foi na Folha de Pernambuco, como repórter de Economia. Depois de três anos e meio na publicação, migrou para o jornalismo independente e assinou em 2017 com o Marco Zero Conteúdo. No ano seguinte, passou a atuar paralelamente como pesquisadora para o Nordeste do Atlas da Notícia, iniciativa do Projor/ Observatório da Imprensa que visa a mapear e combater os desertos de notícias do Brasil. Em meio a alguns frilas que fazia para a própria Pública e outros veículos, como o Intercept Brasil, Mariama recebeu, em 2020, um convite da agência para atuar como repórter e mudar-se para São Paulo. Com a chegada da pandemia de Covid-19, passou por complicações em um período descrito por ela como “muito difícil e estressante”, quando inclusive chegou a trabalhar levantando dados sobre os mortos pelo coronavírus. A partir de 2021, já estabelecida e adaptada à nova realidade na capital paulista, passou a comandar importantes investigações pela publicação. Nesta entrevista, Mariama fala sobre sua carreira, o trabalho na Pública, as dificuldades da mudança para São Paulo, e temas que considera como suas principais bandeiras atualmente: a importância do jornalismo como trabalho coletivo e a necessidade de sua descentralização. A editora da Pública fala ainda sobre desertos de notícias, a importância de ter sido eleita a +Premiada jornalista de 2025 e como enxerga as próximas gerações de profissionais de imprensa. Jornalistas&Cia/Portal dos Jornalistas – Por que você escolheu fazer jornalismo? Mariama Correia – Escolhi jornalismo ainda muito jovem. Desde muito cedo eu gostava de escrever. Meu pai é escritor e ele me estimulou muito nessa área. Cresci participando das revisões dos textos dele, nesse ambiente de literatura, escrita e leitura. Ele não é jornalista, é autodidata, estudou só até o ginásio, mas chegou a trabalhar como revisor na Folha de S.Paulo e ter uma coluna no Diário do Grande ABC. Cresci ouvindo e me interessando por esse ambiente de escrita e gostando muito de contar e de ouvir histórias. Então, acho que foi uma escolha meio natural para mim. J&Cia/PJ – E desde o começo, a sementinha do jornalismo investigativo estava ali? Ou foi algo que você foi construindo ao longo da carreira? Mariama – Na verdade, eu achava que ia trabalhar com cultura, com música. Estudei música clássica quando era pequena. Meu sonho era trabalhar numa Gucci, em alguma revista do tipo. Até cheguei a fazer uma pósgraduação em jornalismo cultural porque queria muito trabalhar com música. Mas quando entrei na faculdade, tive que trabalhar logo cedo para pagar o curso. A vida vai acontecendo e você vai vendo que a coisa é mais difícil, percebi que era algo muito nichado, que certos mercados não são tão fáceis de acessar. E aí terminei tendo minhas primeiras experiências em assessoria de imprensa. Trabalhei muitos anos com isso, tanto que chegou um momento em que em não achava mais que iria trabalhar em jornal, em reportagem, eu já tinha meio que deixado esse sonho de lado, sabe? Trabalhei numa assessoria de imprensa em que a dona, Patrícia Raposo, gostava muito do que eu escrevia. Ela sempre dizia assim: “Esse release está muito bom, renderia uma bela reportagem”. Então, alguns anos depois, ela foi chamada para assumir a direção executiva da Folha de Pernambuco, e me convidou para trabalhar lá como repórter de economia.
14 E eu fui, mas fiquei com certo receio, pois já tinha alguns anos de assessoria de imprensa e era um tiro no escuro, fiquei preocupada de tudo dar errado, de eu não dar conta. Mas a equipe era sensacional, muito atenciosa. Os repórteres e editores me ensinaram muito. Então, fui desabrochando, desenrolando, até desenvolver uma paixão por fazer reportagem, ir aos lugares, escutar as pessoas, viajar pelo País. Eu gostava muito de viajar pelo sertão de Pernambuco para fazer reportagem, ir a comunidades tradicionais, ouvir trabalhadores. J&Cia/PJ – E a sua passagem pelo Marco Zero Conteúdo? Como foi essa mudança para o jornalismo independente? Mariama – Trabalhei por quase quatro anos na Folha de Pernambuco. Durante esse período, percebi também uma grande ascensão do jornalismo independente. Já acompanhava a Pública, o Intercept e outros veículos, e foi então que conheci o Marco Zero Conteúdo, um coletivo de jornalismo independente de Pernambuco, e decidi me candidatar como repórter lá. Foi outro tiro no escuro, mas também deu supercerto, aprendi muitas coisas, principalmente no sentido pensar reportagens com abordagens diferentes, que saíssem do “automático” do dia a dia das redações, onde você precisa pensar rápido o que você fazer ali na hora. No Marco Zero, tive a oportunidade de fazer reportagens aprofundadas, ouvir pessoas que não tinham voz, tentar inverter lógicas em diversos assuntos. Foi um exercício jornalístico essencial para a minha carreira. E, a partir do Marco Zero, ampliei o meu conhecimento desse ecossistema de jornalismo independente, fui entendendo como funciona, como ele é importante, como ele desenvolve. E como eu tinha mais flexibilidade lá, consegui começar a fazer alguns frilas para outros veículos, por exemplo, o Intercept, a própria Pública, com o projeto Colabora. Foi esse trabalho que me abriu as portas para mais tarde mudar para São Paulo. J&Cia/PJ – Quais foram os principais desafios dessa mudança de ares? Mariama – Foi um período extremamente difícil. Na época, havia acabado de acontecer aquele caso de derramamento de óleo no Nordeste, em 2019, um crime terrível que até hoje não foi explicado, ficamos sem respostas. E aí surgiu uma vaga para repórter na Pública, me candidatei e deu certo. A ideia era eu chegar a São Paulo em abril de 2020. Já estava Mariama durante reportagem feita para o Marco Zero Conteúdo na Guatemala e em El Salvador, em 2018 Arquivo pessoal ENTREVISTA: MARIAMA CORREIA
15 tudo certo, tinha saído do Marco Zero, entreguei meu apartamento, mas aí estourou a pandemia de Covid-19. Minha vida estava toda em suspenso. Eu fiquei sem saber o que fazer. E a Pública demorou um tempinho para se organizar, como todo mundo, pensando como fazer os trabalhos. Eu fiquei esperando, agoniada de não fazer nada. Me voluntariei para um trabalho que era o Brasil. IO, que fazia um levantamento de mortes pela Covid, comparando com dados divulgados pelos estados. A gente fazia a contagem todo dia, foi um projeto importante na época. E na minha cabeça, eu pensava que precisava fazer alguma coisa, pois com a pandemia acontecendo, o jornalismo estava de certa forma em um “limbo”. Em setembro de 2020, finalmente o pessoal da Pública me deu o sinal positivo para vir. Naquela época, tinha uma expectativa de que melhorasse tudo no final do ano. Os índices estavam reduzindo, e a gente estava vivendo uma esperança de que 2021 ia ser tranquilo. Eu cheguei a São Paulo, fiquei inicialmente na casa de uma amiga, depois aluguei um apartamento. O problema é que no começo de 2021 tudo piorou, e eu já estava aqui em São Paulo, morando sozinha. São Paulo era uma cidade difícil, solitária, um território desconhecido para mim. Imagine eu, que não conhecia a cidade, estava longe de familiares e amigos por causa do isolamento social, ainda sem vacina e acompanhando diariamente notícias de mortes, incluindo pessoas jovens – foi desesperador. Decidi ir ficando, ver o que acontecia, porque voltar era arriscado, minha mãe é idosa, eu mesma acabei pegando Covid. Mas as coisas foram se acalmando aos poucos e agora, em abril de 2026, eu completarei seis anos de Pública. Foi um período de adaptação muito estressante, mas ainda bem que tudo deu certo no final das contas. J&Cia/PJ – Sobre os projetos premiados da Pública que você fez parte – o Caso K, Projeto Escravizadores e Clima das Eleições –, algum bastidor interessante para compartilhar? Mariama – O Caso K é um trabalho investigativo de muitos anos de apuração, acho que foi o maior da minha carreira até agora. As primeiras reportagens saíram ainda em 2021. Recebemos envelopes com vários documentos policiais e processos judiciais muitos detalhados. Na época, inclusive, eu estava paralelamente fazendo uma outra investigação sobre crimes sexuais de mestres da capoeira, de um grupo chamado Cordão de Ouro. Foi um contexto bem pesado para mim, porque é claro que o trabalho, principalmente sobre temas sensíveis como esses, acaba nos atravessando, sabe? Fiquei até com uma certa mania de perseguição. Em certa noite, um carro parou na porta de minha casa, e eu fiquei desesperada, achei muito estranho, achei que alguém estava atrás de mim, foi muito esquisito. Dito tudo isso, acredito que o resultado do projeto foi incrível. Viajamos para falar com as pessoas, tivemos muitas conversas e o podcast chegou a ficar em segundo lugar no Spotify. Nesse contexto, aconteceu algo que eu nunca tinha experimentado na vida: ser reconhecida no meio de uma festa com amigos. Uma pessoa, do nada, aproximou-se de mim e perguntou “você não é aquela jornalista do Caso K?” e eu respondi “sou!” e a pessoa elogiou, parabenizou pelo projeto e pediu para eu mandar um áudio para a prima dele, que estava na Suíça e também havia adorado o podcast. Para a gente, que não trabalha com tevê, foi uma experiência muito maluca, que me fez perceber que o trabalho realmente furou a bolha e as pessoas reconheceram o que fizemos. Sobre o Escravizadores, acredito que foi uma ideia ousada, que surgiu após trabalharmos com pesquisadores de genealogia. Para fazer a árvore genealógica de políticos e de autoridades brasileiras, foi preciso checar, checar, checar, checar e depois rechecar mais ainda. A gente ficou bem preocupada com tudo isso, pois eram muitas informações e não podíamos errar. Todas as histórias precisavam estar milimetricamente corretas e pautadas nos dados coletados.
16 Ficamos muito curiosos em relação às respostas dos políticos. Muitos deles foram ríspidos ou não responderam, enquanto alguns disseram “nossa, que cara safado esse meu parente”, porque é exatamente isso, a pessoa não tem culpa de ser parente de determinado indivíduo. Mas acho que o mais interessante do projeto é mostrar como o poder no Brasil se mantém nos mesmos grupos, como é algo hereditário. Recentemente, fiz uma reportagem para o projeto sobre Gertrudes de Jesus, uma mulher negra que estava escravizada e conseguiu liberdade e se tornou uma das agentes mais importantes do Clube do Cupim, um clube abolicionista em Recife. E ela ajudava a realizar fugas, com barcos, pelo rio Capibaribe, durante a noite, uma coisa meio filme noir, meio misteriosa. Então, é muito legal, durante o trabalho, ir conhecendo melhor a história do Brasil, descobrir e escrever sobre essas pessoas que foram apagadas pela historiografia oficial, que não são citadas. Muito desafiador trabalhar com pesquisa, é algo que também levarei com carinho na minha carreira, e que bom que deu certo no final. Sobre o Clima das Eleições, que foi um projeto colaborativo com outras publicações, eu assinei uma reportagem, coordenei outras e contribuí com uma ou duas reportagens quando viajei ao Recife. Foi um projeto muito importante e pioneiro, pois discutimos eleições no Brasil com esse olhar da emergência climática, assunto que é muito importante pautar. J&Cia/PJ – Como você vê o jornalismo independente nos dias de hoje? Qual a importância dele para a imprensa e como podemos apoiá-lo cada vez mais? Mariama – Eu decidi ir para o jornalismo independente porque entendia a importância de fazer uma apuração sem amarras com grupos políticos, empresariais ou com interesses privados. Acho que é um privilégio muito grande a gente ter essa liberdade editorial, algo que todo jornalista almeja, mas que nem sempre encontra nas grandes redações. Acho que o jornalismo independente cumpriu uma função muito importante na história recente do Brasil, especialmente no caso do Intercept, que com a Vaza Jato trouxe informações que mudaram realmente o curso das últimas eleições presidenciais e, consequentemente, da história. Tivemos muitos exemplos de coberturas que nasceram no jornalismo independente e que tiveram impacto na sociedade. É um jornalismo que tem comprometimento com o interesse público, em primeiro lugar, com a defesa dos direitos humanos e não está a serviço da defesa de interesses privados ou de grupos partidários. Outro ponto importante a se destacar é a transparência. Na Pública, por exemplo, fazemos um jornalismo que é posicionado politicamente, mas não é partidário, não é panfletário. Então, acho que é muito importante esse posicionamento, essa clareza, essa transparência também para o leitor, porque tudo isso está dito lá no site da Pública, de forma clara. Em muitos grandes grupos de mídia, essa questão não está clara, a chamada imparcialidade é muito subjetiva. Existem escolhas no jornalismo, e quando optamos por publicar ou não publicar determinada matéria, estamos indiretamente escolhendo um lado, ou seja, é tudo muito subjetivo. E eu sou muito orgulhosa de ter feito essa escolha de carreira há alguns anos. Mas acredito que o ENTREVISTA: MARIAMA CORREIA
17 principal desafio do jornalismo independente no Brasil é conseguir manter essa grande rede. Porque esses veículos já existem, outros estão surgindo, inclusive fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília. Cito por exemplo a Cajueira, que é um projeto de valorização do jornalismo independente nos estados do Nordeste, que eu cofundei há cinco anos, com jornalistas também nordestinas. Fazemos newsletter, podcast, temos um banco de fontes nordestinas, fazemos curadoria, uma centena de projetos. É muito importante garantir que esses veículos sigam existindo e trabalhando no Brasil. É essencial desenvolver mais possibilidades para financiamento e sustentabilidade para eles e para a defesa da nossa democracia, que está sob ataque constantemente. Por isso uma das principais bandeiras que defendo em meu trabalho é a descentralização do jornalismo. Eu, como mulher nordestina, saí de minha terra para trabalhar em São Paulo, porque precisei vir em busca de oportunidades, porque as oportunidades não estão em todos os lugares no Brasil. O justo seria que a gente tivesse oportunidade para todo mundo em todos os estados. Essas são as minhas principais bandeiras hoje, a defesa do jornalismo, dessa liberdade editorial do jornalista, do jornalismo independente e da descentralização do jornalismo no Brasil. J&Cia/Portal – Qual a importância de participar do projeto Atlas da Notícia nesse contexto de descentralização do jornalismo? Mariama – O Nordeste é a região com maior quantidade de desertos de notícias do País. É uma região enorme, a segunda maior população do País e a gente tem muitos dos municípios com desertos de notícias ou com quase desertos, que também são muito sensíveis, pois podem virar desertos facilmente. Se isso acontece, aquela população não vai ter acesso a informações checadas sobre o seu município. Muitas vezes, aquela população está mais bem informada sobre o que acontece nos grandes centros porque a televisão reproduz conteúdo de São Paulo, de Rio de Janeiro, de Brasília, mas não sabe o que acontece na sua própria cidade. Não há jornalistas locais para, por exemplo, acompanhar as decisões da Prefeitura, as sessões na Câmara de Vereadores, para denunciar quando falta remédio no posto, quando não tem comida na creche. Além disso, quando há um deserto de notícias, a população fica mais vulnerável à desinformação, porque, sem fontes confiáveis, sem checagem e sem critérios jornalísticos, as pessoas vão se informar pelas redes sociais, onde as informações têm uma qualidade extremamente questionável. E isso impacta decisões futuras, votos eleitorais, afeta diretamente a história do País. Felizmente, os desertos de notícias vêm se reduzindo com o avanço digital, porque hoje em dia é muito mais fácil você abrir uma página independente. Mas a qualidade dessa informação nem sempre é boa. E aí se mostra muito importante o que eu falei sobre discutir possibilidades de financiamento para fomento do jornalismo, entendendo que ele é muito importante para a nossa democracia. J&Cia/Portal – Como é fazer jornalismo investigativo no Brasil? Mariama – Acredito que fazer qualquer tipo de jornalismo no Brasil é muito desafiador, especialmente um jornalismo que defende direitos humanos, que Mariama integrou a equipe da Agência Pública no Festival 3i
18 busca se aprofundar, revelar fatos que não foram revelados, ouvir pessoas que não têm voz. Esse jornalismo que não tem essas amarras privadas ou públicas, e que investiga esses poderes, é ainda mais desafiador. Eu, como editora, sempre me preocupo com a segurança da equipe. Na Pública, temos dispositivos que nos ajudam com isso e garantem alguma proteção para os repórteres. Mas quando a gente faz um jornalismo comprometido com os fatos, infelizmente estamos sujeitos a ataques, processos e assédio judicial. Por isso é importante que os veículos tenham uma estrutura para se defenderem. Na Pública, por exemplo, temos uma consultoria jurídica, a que a gente pode recorrer para se orientar sobre risco de processo e tentar prevenir, de alguma forma, em reportagens mais sensíveis. Quando você faz um jornalismo com uma boa apuração, baseado em fatos, com documentos, com comprovações das informações, isso também é uma forma de você se proteger. Então, é essencial sempre orientar os repórteres a cobrirem todas as lacunas, que estejam sempre seguros em relação às informações publicadas e sejam muito atenciosos e criteriosos quanto à apuração e checagem de informações. Também acho muito importante o trabalho de associações, como a Abraji, que denunciam essas ofensivas jurídicas contra jornalistas e casos de violência digital. Essas entidades ajudam a denunciar e nos proteger enquanto classe. É muito importante também esse pensamento coletivo, para que a gente consiga se blindar mais. J&Cia/Portal – Ao olhar para os trabalhos premiados pela Agência Pública, vemos reportagens feitas a muitas mãos, de forma coletiva e até colaborativa com outras publicações. Como você analisa esse fenômeno? Mariama – O coletivo fortalece demais o trabalho jornalístico. A gente pensa muito junto, discutimos as ideias de pauta, os caminhos da apuração. Quando uma reportagem sai, mesmo que só um repórter assine, mesmo que eu assine uma reportagem sozinha, ela nunca é fruto de um trabalho totalmente solitário. Tem sempre um editor, o fotógrafo, alguém que fez as artes, o design, e até aquele colega que, durante um cafezinho, te deu uma dica ou alguma sugestão. Tem o pessoal das redes que vai ajudar, vai trabalhar aquele material com a linguagem de redes, o pessoal de vídeo, ou seja, toda uma estrutura de pessoas amparando o trabalho. Nunca é individual. Fico feliz também por ser uma mulher nordestina, de Pernambuco, de Olinda, que veio para São Paulo e conseguiu se consolidar aqui no mercado de trabalho e está levando, de certa forma, esse reconhecimento para o seu Estado. Eu também represento esses profissionais e o Pernambuco tem uma tradição de jornalismo histórica muito boa e abriga o Diário Pernambuco, por exemplo, que é o jornal mais antigo em circulação da América Latina. Infelizmente muitas vezes esses profissionais não são vistos, não são tão valorizados quanto outros que atuam aqui no eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília. Fico muito feliz e honrada em ser a +Premiada Jornalista do Ano, mas enxergo essa conquista como coletiva, pois ninguém faz jornalismo sozinho. Por isso enxergo como uma conquista que além de minha é da minha equipe na Pública, do jornalismo independente, do Nordeste, do jornalismo nordestino, do jornalismo pernambucano, enfim, desses profissionais que precisaram sair das suas cidades, dos migrantes nordestinos que vêm para São Paulo em busca de oportunidades. Eu me sinto com muita gente ao meu redor nesse momento. J&Cia/Portal – O que você diria para um estudante de jornalismo que está começando na carreira agora, que está querendo entrar nesse mundo do jornalismo investigativo, do jornalismo independente? Mariama palestra sobre desertos de notícias em encontro da Sociedad Interamericana de Prensa (SIP) ENTREVISTA: MARIAMA CORREIA
19 Mariama – Acredito que o jornalismo está em constante mudança, as coisas mudam muito rapidamente. Hoje, uma pessoa que está na faculdade tem um mercado completamente diferente à sua frente do que eu tive quando saí da faculdade. Na minha época, ainda existia aquela coisa de trabalhar numa grande redação, nos grandes jornais, ainda era o que a gente almejava, trabalhar nos impressos. Hoje em dia é o digital, é outra linguagem. A gente, inclusive, que já está há um tempo na profissão, tem que correr atrás para não ficar defasada, para entender aonde o público está indo. Então, acho que qualquer dica muito prática pode se tornar obsoleta, porque as coisas mudam muito rápido. Mas acredito que, de forma geral, o jornalista deve ser alguém interessado no outro, no mundo ao seu redor, alguém que tem os olhos abertos para a vida, para as coisas. Acho que isso é uma qualidade fundamental, porque a pauta pode estar em qualquer lugar, ela pode estar na sua casa, na sua rua, com o porteiro do seu prédio, com o vizinho, no mercado, no ônibus, no metrô, e é preciso sempre estar atento. Sem isso, acho que é muito difícil fazer jornalismo. Porque as pessoas estão cada vez mais individualistas, vivemos em uma sociedade muito individualista, a gente está sempre muito em torno das nossas questões pessoais, dos nossos problemas, das nossas coisas. E eu acho que uma qualidade fundamental em qualquer jornalista é ter o olhar para o outro, ser interessado sobre as outras pessoas, ouvir e saber ouvir. Equipe da Agência Pública José Cícero Por que “MariaMa”? No dia 20 de novembro de 1981, foi celebrada no Recife, para um público de oito mil pessoas, a Missa dos Quilombos. Criada por Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra, com música de Milton Nascimento, a cerimônia denunciava as consequências da escravidão e do preconceito no Brasil e se transformou num esforço de fé, comunhão, música e ritmo, a partir da atitude revolucionária de membros da Igreja em favor da introdução das referências culturais de diferentes povos na eucaristia. Durante o encontro, Dom Helder Câmara recitou a sua Invocação a Mariama, em homenagem a Maria, Mãe de Jesus. Presente ao encontro, o pai de Mariama guardou o nome em sua memória e, anos mais tarde, decidiu batizar sua filha como uma homenagem.
20 +PREMIADOS JORNALISTAS DO ANO Em um dos anos com mais prêmios em sua história, a Agência Pública garantiu a diversos de seus profissionais posição de destaque entre os primeiros colocados dos +Premiados Jornalistas do Ano. Além da primeira posição, ocupada por Mariama Correia, outros sete jornalistas da publicação dividiram a quarta colocação nacional: Amanda Audi, Bianca Muniz, Bruno Fonseca, Danilo Queiroz, Matheus Pigozzi, Rafael Custodio e Rafael de Souza Oliveira. Vencedora de quatro prêmios de reportagem de destaque no ano passado, todos a partir de especiais que contaram com grandes equipes em seu processo de apuração e produção, foi justamente essa ampla colaboração que garantiu as posições de destaque no Ranking. Com o Projeto Escravizadores, a Pública venceu os prêmios SIP, na categoria Jornalismo de Dados e Infografia, e Claudio Weber Abramo, em Investigação; com o Caso K, faturou o Amaerj Patrícia Acioli; e com o especial Clima das Eleições, produzido em parceria com a Amazônia Vox e o Matinal Jornalismo, venceu o recém-incluído CCNow Journalism Awards, em Grandes Projetos & Colaborações. Única a participar das equipes que produziram os três especiais, Mariama garantiu a primeira colocação geral, enquanto os demais conquistaram três dos quatro prêmios e terminaram na quarta colocação. Curiosamente, a 11ª posição ficou com Natalia Viana, fundadora da Agência Pública e consagrada no ano passado com o Maria Moors Cabot, uma das mais tradicionais e antigas premiações do jornalismo mundial. Eleito o +Admirado Jornalista do Brasil em 2025, Caco Barcellos, da TV Globo, dividiu com Vinicius Sassine, da Folha de S.Paulo, a segunda colocação Nacional. Além do prêmio promovido por Jornalistas&Cia, Caco faturou no ano passado o Troféu Audálio Dantas. Vinicius alcançou posição de destaque pelas conquistas dos prêmios Roche, na categoria Jornalismo Escrito, com a reportagem Marajó Profundo; Impa de Divulgação Científica, pela série Mudanças climáticas na Amazônia; e Vladimir Herzog e Direitos Humanos, ambos na categoria Áudio, pela série Dois mundos, publicada pelo podcast Café da Manhã. Nas divisões regionais, as primeiras colocações ficaram com Mariama Correia, no Sudeste, Vinicius Sassine, na Região Norte, Idiana Tomazelli, no CentroOeste, André Lux, da NSC TV, no Sul, e Alice de Souza, da Deutsche Welle Brasil, no Nordeste. Confira a seguir os +Premiados Jornalistas do Ano no Brasil e nas cinco divisões regionais. Abaixo de cada tabela também está o link para acessar o resultado completo no Portal dos Jornalistas. Agência Pública domina os TOP 10 dos +Premiados Jornalistas do Ano Oito dos dez primeiros colocados do ano atuam pela publicação
21 +PREMIADOS JORNALISTAS DO ANO Nacional Confira a lista completa no Portal dos Jornalistas Posição Pontos Prêmios Nome Veículo Região Regional 1º 127,5 4 Mariama Correia Agência Pública SE 1º 2º 105 2 Caco Barcellos TV Globo SE 2º 4 Vinicius Jorge Carneiro Sassine Folha de S.Paulo N 1º 4º 102,5 3 Amanda Audi Agência Pública SE 3º 3 Bianca Muniz Agência Pública SE 3º 3 Bruno Fonseca Agência Pública SE 3º 3 Danilo Queiroz Agência Pública SE 3º 3 Matheus Pigozzi Agência Pública SE 3º 3 Rafael Custodio Agência Pública SE 3º 3 Rafael de Souza Oliveira Agência Pública SE 3º 11º 100 1 Natalia Viana Agência Pública SE 9º 12º 90 1 Patricia Campos Mello Folha de S.Paulo SE 11º 13º 85 2 Andre Lux NSC TV S 1º 1 Juliana Dal Piva ICL NOTÍCIAS SE 12º 15º 80 1 Fabio Alarico Teixeira Freelancer SE 13º 1 Marcelo Maragni UOL SE 13º 17º 75 3 Bruno Pinheiro Faustino TV Tribuna/Negócio Rural SE 15º 1 Ester Pinheiro AzMina SE 15º 1 José Hamilton Ribeiro Conjunto da Obra SE 15º 1 Karla Mendes Mongabay Brasil SE 15º 1 Lucio Flavio Pinto Conjunto da Obra N 2º 2 Rafael Soares O Globo SE 15º 23º 72,5 2 Idiana Tomazelli Folha de S.Paulo CO 1º 24º 70 2 Alice Cristiny Ferreira de Souza Deutsche Welle Brasil NE 1º 2 Fabio Leite Metrópoles SE 20º 2 Flavia Peixoto Cardoso TV Brasil CO 2º 2 Pedro Nakamura O Joio e O Trigo/Veja Saúde S 2º 2 Rebecca Crepaldi Exame SE 20º 2 Rodrigo Alcantara Dávila Rádio Comunitária S 2º 30º 65 2 Ana Alice de Lima Agência Pública SE 22º 2 Babak Fakhamzadeh Agência Pública SE 22º 2 Bruno Penteado Agência Pública SE 22º 2 Catarina Bessel Agência Pública SE 22º 1 Daniela Arbex Intrínseca SE 22º 2 Darlene Dalto Agência Pública SE 22º 2 Ester Nascimento Agência Pública SE 22º 2 Ethieny Karen Agência Pública SE 22º 2 Fernanda Diniz Agência Pública CO 3º 2 Leandro Aguiar Agência Pública SE 22º 2 Leticia Gouveia Agência Pública SE 22º 2 Lorena Morgana Agência Pública SE 22º 2 Marina Dias Agência Pública SE 22º 2 Matheus Santino Agência Pública SE 22º 2 Patricia Junqueira Agência Pública SE 22º 2 Pedro Ezequiel Agência Pública SE 22º 2 Raphaela Ribeiro Agência Pública SE 22º 2 Raquel Okamura Agência Pública SE 22º 2 Renata Cons Agência Pública SE 22º 2 Romeu Loreto Agência Pública SE 22º
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