Edição 1.538 - pág. 34 ANOS Roquette-Pinto (*), publicado em 1917, que era a minha “bíblia” na viagem. Nele viram fotos de seus avós, fotografados pelo dublê de médico/antropólogo. Não adiantava reclamar. Meu livro passava de mão em mão. Juntei-me à garotada pelada e Azumaré resolveu usar meu testemunho para desmentir os missionários salesianos que os catequizavam. “O utiairiti (padre) diz que o pareci era índio ateu, nunca teve Deus, precisou eles virem aqui para ensinar de Deus, de Cristo Jesus, para batizar os índios. Mas não é verdade não”, dizia ele. Num eficiente trabalho de tradutor simultâneo, Azumaré falava em halitiparesi, a língua Aruak, para os índios e repetia em mau português, para mim. “O livro conta que pareci tinha Deus antes dos padres chegarem, Enorê era Deus dos parecis”, afirmava. Foi Enorê, dizia o chamã, que fez o primeiro homem, esculpido com uma faquinha num pedaço de madeira. “Depois Enorê soprou e o homem viveu. Viveu sozinho primeiro, mas Enorê achou que não era bom o homem solitário, fez a mulher”. Eu escutava impressionado com as semelhanças da lenda indígena com o Livro do Êxodo da Bíblia cristã. Mais interessado em ouvir do primeiro contato dos brancos com os parecis, nem tive coragem de revelar que Roquete Pinto nada escrevera sobre religião. Único “civilizado” na aldeia, já que a filha do cacique estava em São Paulo, estudando para ser professora, me emocionei, culpa também do olnití que bebi. Falando para o “tradutor”, apresentei minha visão teológica, que poderia valer excomunhão. Disse que Deus é um só e se os parecis o chamam de Enorê está certo e Ele houve tanto as preces em português como em outras línguas. Meio bêbado, disse que se Enorê manda o homem ser bom, não fazer maldade, gostar de todo mundo (já que o cacique não entendeu o sentido de “ama a teu próximo como a ti mesmo”) e garanti que Enorê prega o mesmo que o Jesus dos padres. Certamente vai receber no céu tanto branco como índio, não importa de que religião. Aparentemente, minha “teologia” convenceu os índios. Azumaré fazia uma cara estranha que podia ser um sorriso, falou algo que não traduziu, mas entendi como sendo “eu não disse?”, e me devolveu o livro, que me arrependo de não ter deixado com ele. No dia seguinte ainda me ajudou a remontar o câmbio do Jeep, mas logo desistimos. Içamos o Jeep para um caminhão que levava cassiterita garimpada clandestinamente e só então conheci um dos padres salesianos que levantara a ponta da lona do caminhão e tentava abrir um saco de cassiterita. “É para nossa coleção de minerais”, explicou envergonhado de ser pego no flagra. Nunca voltei à aldeia, que certamente está diferente. Afinal, ao contrário de outras tribos hoje extintas pelos vírus do sarampo, da gripe mortal para os índios, os parecis se multiplicaram e hoje são grandes produtores de milho-pipoca, certamente com a bênção de Enorê. (*) Nota da Redação: Edgard Roquette-Pinto viria a fundar em 1923 a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, considerada a primeira emissora de rádio do Brasil Roquette Pinto com crianças parecis Jornalistas&Cia é um informativo semanal produzido pela Jornalistas Editora Ltda. • Diretor: Eduardo Ribeiro ([email protected] – 11-99689-2230) • Editor executivo: Wilson Baroncelli ([email protected] – 11-99689-2133) • Editor assistente: Fernando Soares ([email protected] – 11-97290-0777) • Repórter: Victor Felix ([email protected] – 11-99216-9827) • Estagiária: Ana Laura Ayub ([email protected]) • Editora regional RJ: Cristina Vaz de Carvalho 21-99915-1295 (cvc@ jornalistasecia.com.br) • Editora regional DF: Kátia Morais, 61-98126-5903 ([email protected]) • Diagramação e programação visual: Paulo Sant’Ana ([email protected]. br – 11-99183-2001) • Diretor de Novos Negócios: Vinícius Ribeiro ([email protected] – 11-99244-6655) • Departamento Comercial: Silvio Ribeiro (silvio@jornalistasecia. com.br – 19-97120-6693) • Assinaturas: Armando Martellotti ([email protected] – 11-95451-2539)
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