Edição 1.462 página 30 a ideia e não iríamos frustrar um anunciante tão importante, tão firme apoiador. Fernando Pessoa tinha de ser jornalista, por deus do céu! De algum jeito. O gênio não poderia nos faltar nessa hora de honrá-lo com os modestos louros que tínhamos a dar, de reconhecê-lo como um igual, um dos nossos. Ou, melhor, reconhecêlo também como jornalista, porque igual ao poeta pessoa não havia ou há bardo, cá nestes trópicos, com a pretensão de ser. A missão de revelar o jornalista em Pessoa foi incumbida ao colega português João Alves das Neves, também escritor e conhecedor da obra do mestre. Ele foi contratado para escrever o texto do especial, mas teve problemas pessoais e acabou atingindo o prazo de entrega sem produzir nenhuma linha. O abacaxi sobrou para mim: cumprir a pauta em 72 horas, a tempo de pegar o fechamento da edição e não atrasar o envio à gráfica. Sem Neves por perto, que estava em Lisboa, recorri à professora Nelly Novaes Coelho, renomada especialista em literatura portuguesa da Universidade de São Paulo. Conversei com ela uma tarde inteira, aprendi o possível sobre a prosa de Fernando Pessoa e saí abarrotado de livros, com uma infinidade de trechos indicados para leitura. Tudo lido, restava a escrita. Confesso que escrever sobre Pessoa naquele contexto celebratório, com uma pauta ousada, me pesou. A avaliação dos meus rigorosos leitores seria de conteúdo e estilo. Eu não podia falhar à mínima comparação com o homenageado, um totem da língua. Talvez então Alberto Caieiro tenha me valido nessa hora, para a abertura que perpetrei. “De que são feitos os jornalistas, afinal? De técnica, informação e juízo ou, antes, de inquietação, ansiedade e dúvida? O jornalista é o ser que tem as respostas ou, antes, o que propõe perguntas? É o onipotente que trafega por todas as esferas da vida colecionando sapiência para distribuir ao próximo ou é o humilde ignorante que indaga aos outros para descobrir que cada resposta suscita novas dúvidas e que, quanto mais se sabe, mais resta por saber?” Era um evidente nariz-de-cera, uma embromação de abertura, ainda que elegante. Mas logo a acusei e identifiquei o seu “sabor metafísico” e sua “inspiração hamletiana”, argumentando que as questões bem poderiam se aplicar a Pessoa. A questão foi o ponto de arranque do texto. “Afinal, Pessoa foi ou não foi um jornalista?”. Convidei o leitor a considerar comigo e apresentei as descobertas. Em 47 anos de vida, Pessoa publicou apenas um livro (Mensagem, 1934), mas editou 299 textos em poesia e 132 textos em prosa, em dezenas de jornais e revistas. Nessa prosa, em meio a contos, cartas e apontamentos, há um razoável conjunto de crônicas, críticas, comentários políticos e análises econômicas, gêneros que são o ganha-pão dos jornalistas. O mais surpreendente da investigação foi descobrir que o jornalismo de Fernando Pessoa antecedeu a poesia e começou exatamente pelo que há de mais nobre nele, a reportagem. Em 1902, pouco antes de completar 14 anos de idade, o futuro poeta passou uma temporada de férias nos Açores e editou ali alguns números de A Palavra, um trepidante diário manuscrito dirigido por F. Pessoa − vulgo Dr. Pancrácio − e redigido por um heterônimo primordial, M. N. Freitas. No número três, de 15 de maio, A Palavra traz em manchete O Terrível Cyclone no Caes das Hortaliças − Diversos Estragos e Mais Pormenores. Na matéria de Imprensa, valorizei o bom texto informativo do imberbe Freitas. “Era já mais de uma hora quando se deu a causa da catastrophe. O cyclone tinha já soprado 7 ou 8 minutos quando um pé de vento mais forte arrasou a muralha d’Este, construída há 3 mezes por o engenheiro sr. José Augusto Mattos, que quiz por ella um milhão, garantindo-lhe a solidez (que garantia!). Este desastre fez a perda de muitos botes que alli estavam abrigados”. Na obra jornalística madura, lavrada nas décadas iniciais da república portuguesa, Fernando Pessoa exercita Capa Imprensa Capa caderno Página interna
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