Jornalistas&Cia 1462

Edição 1.462 página 29 Fernando Pessoa jornalista? Foi o que nos perguntamos nos inícios de 1988, quando estudávamos as efemérides daquele ano para programar a pauta de Imprensa e trombamos com o centenário do poeta. Lançada meses antes em São Paulo, a revista era a sensação do mercado brasileiro de publicações. Não tanto por sua tiragem, modesta diante de tantas outras, mas pelo conteúdo e o público que atingia. Imprensa era a primeira revista sobre jornalismo e jornalistas, voltada a cobrir o exercício profissional da atividade, as questões do negócio, as suas personagens e a sua mística. Todas as publicações de mídia existentes até então eram revistas ou cadernos de propaganda e marketing, que eventualmente abordavam o jornalismo. Agora, ele falava por si só, com voz autônoma. A nata dos profissionais e dos empresários, todos os sabores do jornalismo do Brasil eram servidos em Imprensa, mensalmente. Ao público em geral e ao próprio mercado, em particular. Cada jornalista e publisher dos principais jornais e revistas do País recebia o seu exemplar na sua mesa de trabalho, antes que a circulação chegasse às bancas. O jornalismo brasileiro se mostrava e se via em Imprensa. Então estávamos lá − Paulo Markun, Dante Matiussi, Sinval de Itacarambi Leão, Manoel Canabarro, Hélcio Vieira e eu − pensando na pauta da revista para o ano de 1988. Foi quando um de nós lembrou que Fernando Pessoa completaria 100 anos em junho e comentou que a efeméride seria gorda, daria o que falar. Outro Gabriel Priolli n A história desta semana é de Gabriel Priolli ([email protected]), 71 anos, jornalista desde 1975. Foi repórter, editor, apresentador, produtor, diretor e criador de programas, diretor de programação, de jornalismo e de rede, e consultor em diversas emissoras de TV. Por 25 anos, cobriu televisão como repórter, editor, colunista ou crítico em vários veículos. Também por 25 anos, foi professor de telejornalismo. Atualmente, faz consultoria e desenvolve projetos em comunicação. O jornalista em Pessoa lembrou que o poeta escrevera Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, na pena de seu heterônimo Álvaro de Campos. E outro observou que os nossos amigos da General Motors adorariam saber disso. Deuse o click para uma virtuosa aventura de jornalismo cultural, que nos iria recompensar tão amplamente como não poderíamos imaginar. Imprensa era uma revista de jornalismo que se consagrava rapidamente como um sucesso empresarial. Todo o mercado anunciante do Brasil, as principais marcas e agências, queria estar diante dos olhos de virtualmente todos os jornalistas e publishers brasileiros, de todos os veículos e regiões. Porque era esse o alcance da revista e de seu prestígio. E era esse o poder de comunicação institucional que ela detinha, para fazer chegar as mensagens publicitárias a esse público mais que estratégico, decisivo. Mas Imprensa era uma revista de jornalismo feita por jornalistas, com rigorosos critérios jornalísticos. Isso significava que os guichês da publicidade e da redação eram bem separados. Não vendíamos propaganda vestida em roupa de notícia. Não publicávamos notícia para passar uma fatura a alguém interessado nela. Cobríamos o mercado jornalístico inteiro, inclusive o segmento de assessorias de imprensa e comunicação empresarial, com isenção e rigor apurativo. Para narrar exatamente o que encontrávamos, de bom ou de ruim. A independência e a seriedade editorial eram o que credibilizava a revista, junto aos jornalistas, ao público e ao mercado. Isso não significava, de modo algum, qualquer tipo de prevenção, muito menos animosidade, com os nossos anunciantes e suas agências. Seria estúpido, antiprofissional. Estávamos abertos a ideias editoriais que nos permitissem fazer o melhor jornalismo e, ao mesmo tempo, oferecer boas oportunidades de comunicação publicitária com os nossos leitores. Foi o que se deu no centenário de Pessoa. A efeméride propiciava a edição de um caderno especial de Imprensa dedicado ao poeta. O poema de Sintra evocava o Chevrolet e atraía a General Motors. Ela faria seu anúncio a partir dele e seria a patrocinadora exclusiva do caderno. O leitor ganharia o nosso texto e o poema. A GM ganharia o olhar do leitor. Jogo limpo, de total e legítimo ganha-ganha, jornalístico e publicitário. Bem, mas… relacionar Fernando Pessoa e jornalismo? Como fazer? Haveria essa relação? Nunca ouvíramos falar. Era esse o desafio a enfrentar até o meio do ano, em caminho sem volta, porque a GM comprou imediatamente Fernando Pessoa

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