Edição 1.462 página 18 Por Assis Ângelo PRECIO SIDADES do Acervo ASSIS ÂNGELO Contatos pelos [email protected], http://assisangelo.blogspot.com, 11-3661-4561 e 11-98549-0333 A escritora Clarice Lispector, de origem ucraniana, era uma pessoa muito solitária. Discreta, ela dizia muito nos seus escritos. Escreveu sobre amor, amante, sexo. No conto A Língua do P, ela conta a história de uma jovem que por pouco, muito pouco, não foi estuprada por dois canalhas que se achavam num vagão de trem noturno. Era uma professora mineira indo dar aulas para viver, no Rio de Janeiro. Ela percebe que os dois estão falando a língua do P, combinando a hora de atacá-la. Mas o conto não termina aí e mais não digo. Noutro conto, Ruído de Passos, Clarice cria uma situação pra lá de bonita com uma personagem de 81 anos de idade. Começa assim: Fora linda na juventude. E tinha vertigem quando cheirava profundamente uma rosa. Pois foi com dona Cândida Raposo que o desejo de prazer não passava. Teve enfim a grande coragem de ir a um ginecologista. E perguntou- -lhe envergonhada, de cabeça baixa: – Quando é que passa? – Passa o quê, minha senhora? – A coisa. – Que coisa? – A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse enfim. – Minha senhora, lamento lhe dizer que não passa nunca. Olhou-o espantada. – Mas eu tenho oitenta e um anos de idade! – Não importa, minha senhora. É até morrer. – Mas isso é o inferno! – É a vida, senhora Raposo. A vida era isso, então? essa falta de vergonha? – E o que é que eu faço? ninguém me quer mais… O médico olhou-a com piedade. – Não há remédio, minha senhora. – E se eu pagasse? – Não ia adiantar de nada. A senhora tem que se lembrar que tem oitenta e um anos de idade. – E… e se eu me arranjasse sozinha? o senhor entende o que eu quero dizer? – É, disse o médico. Pode ser um remédio… Assim, a velha senhora acabou alcançando o Nirvana por meios próprios. Quer dizer: acariciando o próprio corpo, como insinuou no palco a cantora estadunidense Madonna em show realizado em abril de 2024, no Rio de Janeiro. À propósito, o maestro Júlio Medaglia publicou artigo na Folha de S.Paulo, edição de 9 de maio, em que classifica a apresentação da artista como “um show pornográfico”. Mais: “Pessoas do mesmo sexo se chupando, se esfregando; Madonna de joelhos tendo Pabllo Vittar atrás de si beijando seu traseiro; selvagerias gerais etc”. A jornalista, poeta e romancista potiguar Irene Dias Cavalcanti, trocou seu Estado pelo Estado da Paraíba, quando tinha uns 15 anos de idade. Talvez menos. Licenciosidade na cultura popular (LX) Clarice Lispector Como observadora da vida cotidiana, Irene escreveu muita coisa na forma de poesia e prosa abordando a temática erótica. No começo dos anos 1960, ela andou publicando livros de poesia falando do prazer sexual da mulher, negado pelo machismo. Exemplo: Quero um homem forte e viril cobrindo meu corpo todo penetrando-o num impulso másculo e voluptuoso eu quero não só um beijo quero muitos de uma vez pelo meu corpo sedento torturado e infeliz pode morder que importa? num prelúdio embriagador eu quero morrer de beijos eu quero morrer do amor por que tantos graus de febre podendo me aliviar? por que a febre queimando? e o corpo se maltratar? porque nesta ocasião suspirando por amar viver só alucinada reclinada em leito frio sempre desagasalhada nesse leito tão sombrio eu quero um homem quero um homem não suporto mais sofrer quero um homem quero um homem quero de amor viver... Um dos romances mais provocativos de Irene é O Amor do Reverendo (2009). O reverendo no caso é um padre de nome Abraão, que conhece Maria Luísa durante um acidente. Ele a pega nos braços ferida e ambos se apaixonam. Simples assim. Na sua dissertação de pós-graduação pela Universidade Estadual da Paraíba, a estudante Juliana Karol de Oliveira Falcão escreveu, em 2022: Os romances de Irene Dias Cavalcanti fazem parte de um período ou de um lugar de revolução não apenas sexual, como também social e cultural ao reivindicar lugares e igualdade entre o homem e a mulher. Destacam-se as suas obras literárias não somente como um discurso de empoderamento sexual, como também um manifesto contra diversas injustiças sociais pelas quais passam grupos desfavorecidos que partem de camadas abastadas contra camadas desfavorecidas, que partem de brancos contra negros, de homens contra mulheres, de igreja contra fiéis, de coronéis contra agricultores, entre outros. O Amor do Reverendo é prefaciado pelo padre Waldemir Cavalcante Santana. Irene Dias Cavalcanti, nascida em 1927, passou a infância no município de Campina Grande. É considerada um símbolo da luta feminina contra o machismo imperante até os dias de hoje. Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora Madonna e Pabllo Irene Dias Cavalcanti
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